A Mãe terra grita por Agroecologia, Da Mãe Terra Esperança e resistência.
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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Capitalismo: uma história de amor!


Documentário  relata a crise econômica nos EUA.

Por Leidiana S. Paula (PJR Capixaba)

O filme de Michael Moore é um vídeo - documentário - que nos mostra bem claro como o capitalismo é capaz de alienar e congelar o pensamento e a ideologia das pessoas; Nos mostra também como ele conseguiu criar uma bolha de ilusão nos Estados Unidos,  que a partir da Segunda Guerra Mundial, sobre os escombros de outras grandes potências como o Japão, Alemanha e Inglaterra, cujo parque industrial se encontrava totalmente destruído,  funda uma Classe Média Burguesa baseada nos ideais da liberdade, uma classe media prospera e feliz.

E foi exatamente esse modelo, de “Capitalismo dos Sonhos’’ que os Estados Unidos exportou esse tempo todo para o resto do mundo, como se fosse à sociedade ideal, perfeito e possível de ser atingida por todos.

Moore  apresenta uma analise critica e algumas vezes bem sarcástica  da economia americana, desde a sua independência ate os dias atuais e aborda ainda uma discussão histórica entre o Capitalismo e a Democracia Popular.

Mostra  bem claro o uso das propagandas comerciais,  que Moore utiliza como respaldo para explorar o tema da ultima “Crise Econômica Mundial’’, que começou nos Estados Unidos através das Corretoras Imobiliárias. 

Consegue fazer também uma abordagem histórica – linear, mostrando que a historia muda com o passar do tempo, às vezes bem mais rápido do que se deseja e espera; Ele usa isso para comparar logo no inicio o Império Romano ao Império Norte Americano reacionário, e foca principalmente a “Crise Financeira de 2008” que assolou e desesperou muitos países do mundo.

A principal causa dessa crise foi a falta de liquidez bancaria, ou seja, para cada dólar emprestado, os bancos deveriam ter um dólar em “Cash Money”, o que não ocorreu. Todos os bancos emprestaram mais do que podiam e acabaram indo a falência total.
O que o bom senso dizia ser mentira a historia confirmou...

A crise do sistema, que se iniciou, e como já citado pelo estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos, o que gerou não só a quebra de vários bancos, mas também a quebra de inúmeras financiadoras, o que jogou a classe media numa situação de penúria digna dos chamados países de “Terceiro Mundo”. E foi exatamente o que levou famílias inteiras totalmente iludidas por peças de marketing mentirosas, que pregavam idéias mirabolantes,  a investir no Cassino chamado “Bolsa de Valores”; Como já se previa a conseqüência dessa loucura e idiotice foi tremenda e dolorosa, todas as famílias que tinham investido perderam tudo,  e viram suas vidas serem destruídas em questão de dias.

Pessoas comuns foram expulsas de suas casas como bandidos e passaram a sentir na pele a crueldade do Sistema Capitalista.O que fica claro no documentário de Moore, é o envolvimento do Governo com as grandes corporações, e principalmente o uso das propagandas eleitorais e dos discursos políticos, o que evidencia as contradições entre o discurso e a pratica dos políticos no senado americano. Sem falar nos acordos vantajosos que são fechados entre políticos e grandes empresas. E sem esquecer também dos Juízes, como é o caso “PA Child Care”, onde o Juiz Conner fechou o “Centro de Assistência ao Menor” pelo valor de 50 milhões de dólares, o que foi um valor muito alto.

No inicio dessa bagunça toda, surge uma Revolução Popular Operaria Americana em que as famílias resistem aos despejos judiciais em suas casas, onde a massa popular decepcionada protesta contra o fechamento de grandes e pequenas fabricas.

Um forte exemplo disso é a General Motors GM Americana, que no Brasil é conhecida como Chevrolet; Uma empresa que depois de muitos anos de dedicação e trabalho (com exploração dos trabalhadores) para chegar ao topo e ser o que era, é atingida de cheio pela crise econômica e se vê obrigada a demitir todos os seus empregados e fechar as portas literalmente.
O sistema econômico mais feroz já criado pelo homem vem cobrar o que lhe foi prometido, o que lhe foi acordado,  e assim poder levar a tão sonhada “Fatia da Torta”da classe media americana,que já não existe mais, porque a torta toda se encontra nas mãos de apenas 1% da população, os mais ricos do pais.

No começo do desenvolvimento do sistema capitalista, quando este se apresentava de forma amigável e como solução de todos os problemas existentes, foi prometida a classe média americana que essa tortinha iria crescer e crescer,  e cada um teria direito e acesso  ao seu pedaço de torta.

Barack  Obama retomou esse discurso insano e louco na sua candidatura e tentativa de ganhar as eleições para Presidente dos Estados Unidos; Ele prometeu e afirmava firmemente que cada americano teria o seu ‘‘pedaço de torta’’, no qual foi taxado pela oposição (os republicanos) de ‘‘Socialista’’, o que foi um insulto para todos os movimentos e partidos de esquerda(realmente de esquerda) de todo o mundo.

A oposição para combater Obama, usou um dos mais velhos e mentirosos discursos, prometeu que ninguém iria mexer na torta de ninguém, que a ‘‘propriedade privada’’ e a liberdade estariam garantidos na América do Norte.

Não era bem isso que a ‘‘Antiga Classe media’’, e atual ‘‘Classe Trabalhadora Pobre’’queria, os mais atingidos pela Crise econômica; Principalmente os proprietários de imóveis que tiveram suas vidas afetadas diretamente, e que tiveram suas casas hipotecadas, e os operários que tiveram suas fabricas fechadas, sem receber nada pelo tempo de trabalho, ou melhor, de exploração, sem os seus direitos trabalhistas.

Enquanto os ‘‘Bancos da Wall Street’’ foram ressarcidos de todas as perdas na crise, através de transferências vultuosas de dinheiros oriundos do Governo Americano, no qual foi usado para pagar polpudos bônus aos seus executivos. E os capitalistas que mais defenderam e defendem a liberdade sem a intervenção governamental, foram os que mais receberam ajuda do governo.

Uma outra realidade, que ficou bem clara, foi a situação dos pilotos de avião, que usam vale refeição , porque o salário que recebem é miserável devido ao que exercem.
As greves gerais se tornam necessárias e os operários, ou melhor, toda a ‘‘Classe Trabalhadora’’ não devem ter medo de lutar por seus direitos pelo que é seu e não da burguesia, e como cita Michael Moore no filme... ‘‘O Sistema Capitalista realmente é um Sistema de dar e retirar... Mais de retirar do que dar!

Michael Moore conseguiu mostrar em seu documentário elementos reais e ficcionais ao mesmo tempo, uma historia do passado e da atualidade, e conseguiu deixar bem claro quem são os mocinhos e quem são os vilões da historia. E vemos que realmente o Capitalismo é como uma Historia de Amor, que começou de forma linda, inocente, acabando em uma tragédia cheia de mentiras, abuso excessivo e traição.

O que levou ao atual estado econômico que os Estados Unidos se encontra, foi o desinteresse total do povo, manipulado e alienado pelo Sistema Capitalista.... As pessoas vêem suas vidas cada vez mais dependentes e miseráveis, tudo isso por causa de um sistema corrompido pela grande margem de lucro.

Moore consegue deixar bem claro quais são as problemáticas que o Sistema Capitalista trouxe aos estados Unidos, e também as conseqüências que trouxe para o resto do mundo, tendo em conta o grande Poderio Econômico Norte Americano.

Sendo assim ainda vemos pelo mundo sinais e reflexos da crise norte americana que não chegou ao fim e que está levando muitos países a ruína econômica.... e essa historia ainda não terminou, e está muito longe de terminar!!!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Força na caminhada

julia leticia Helmer Brum
“Não foram vocês que me escolheram, mas fui eu que vos escolhi.”
(Jo 15, 16)
As palavras do jovem camponês de Nazaré, Jesus Cristo, nos cativam como seu povo escolhido, temos por missão lutar pela construção do reino de Deus, em prol de um projeto popular para o Brasil. Nessa luta somos alimentados por nossa mística, que nos dá coragem e força na caminhada.
A mística não é a nossa coragem, a nossa energia ou força, mas estes sim emergem da nossa mística, e nos permitem persistir na caminhada. Esta tem dois pilares fundamentais: uma raiz, cristã, pois somos guiados por Jesus Cristo, cremos na ressurreição e acreditamos em seu projeto de vida e sociedade, compreendendo que ser verdadeiramente cristão exige de nós doação, para estar ao lado dos injustiçados, na luta por libertação; camponesa, que revela a nossa identidade, a nossa intima ligação com a terra, e com o cuidado com a mesma; e por fim, nossa raiz que emerge da luta do povo, dos pobres, que nos faz buscar força e energia junto à história.  E um rumo, que nos leva a pensar no que queremos construir.
A mística educa nossa consciência e sustenta uma esperança, uma tarefa, uma identidade e nossa militância. Assim vamos cultivando a vida, o amor, e o cuidado com nossos companheiros, vamos rezando a vida, compartilhando os sonhos, e juntos lutando para termos vida, e vida em abundância.



 22 de julho de 2011

Funeral de um lavrador

 Texto de Paulo Ceriole

A placa improvisada na beira do asfalto que liga Monte Santo a Euclides da Cunha indica Mandassaia a mais ou menos dez quilômetros. Um estrada de terra corta o sertão até chegar ao povoado. O povo está aguardando próximo a uma casa o inicio do enterro. Dentro, num caixão, está Leonardo de Jesus leite. Companheiros e companheiras do movimento CETA, vindo de outros municípios, foram os que velaram o corpo, durante a madrugada.
São nove horas da manhã. O sol já se faz arder na pele. De repente o caixão é carregado para fora da casa e para em frente. O choro, já calado, aflora pelo irmão inerte. A procissão inicia. Como que combinado, uma nuvem esconde parcialmente o sol e uma leve brisa aparece. A dor está no ar, os gritos ecoam e o soluçar marca o ritmo dos passos.
Param novamente em frente de outra casa. Parece que nela está sua mãe. A esposa ainda está em choque. Um dos dois filhos, pois são gêmeos, agora com sete anos, se recusa a acompanhar, já que o pai não vai mais acordar. Alguns homens retirem as pessoas que choram e as levam para a casa. E a procissão reinicia silenciosa rumo ao fim do povoado.
Um silencio pesado, que fala de uma vida de luta que aos 37 anos foi ceifada por um tiro a mando do latifúndio. Alguns sussurram que foram três jagunços os que fizeram o serviço. E o silencio volta apenas quebrado pelos chinelos que levantam poeira da areia que existe naquele caminho do sertão, rumo ao cemitério.
Testemunha desta marcha fúnebre são as parcas roças de milho, a beira do caminho, onde as plantas estão queimadas pelo sol, que voltou a arder. Estas roças ressecadas são tristes testemunhas de que ali vivem lavradores e que, por falta de chuva, nem a semente será colhida e o cuzcuz provavelmente irá faltar na medida em que a fome irá nascendo.
O cantar de algumas mulheres, quebra o silêncio: “se a jornada é pesada ... segura na mão de Deus e vai”. Peso de uma vida sofrida, na esperança de ter um pedaço de chão. Como já não tem para quem apelar, se apegam em Deus, e continuam a marcha pela vida, pela conquista da terra partilhada da Fazenda Jibóia. O silêncio recomeça, cada vez mais triste. As poucas cabras que estão a beira do caminho, deixam de roer as cascas das árvores, para observar aqueles seres que passam.
O triste cantar recomeça: “lá vem Jesus cansado com o peso da cruz”: é um sofrido cansado que vem ao encontro de outro sofredor. Ali a morte ronda quem sonha com um pedaço de terra e uma vida orientada por um Projeto Popular. Já não há o que esperar das autoridades, nem de Monte Santo, local do quartel general dos militares que massacraram Canudos, anos atrás. Nem das autoridades da Bahia e muito menos das que estão em Brasília. E o silêncio volta a permitir que os últimos acontecimentos se tornem vivos na cabeça dos caminhantes.
De repente o passo se torna mais rápido. O cantar ecoa “estou pensando em Deus, estou pensando no amor”. Mas o canto é quebrado pelo “brado” de um jegue que olha admirado pela meia centena de motos estacionadas em frente ao muro branco do cemitério: até ele sente-se em desvantagem com as mudanças que estão chegando ao sertão. O que não muda é a existência de coronéis que se consideram dono da vida do povo, apoiados por seus jagunços, onde alguns usam ou já usaram farda, escuto num novo sussurro.
No portão do cemitério muitos batem os pés ou sacodem os chinelos. Não querem levar nenhuma poeira para aquela “terra santa”: ao entrar rezam uma Salve Rainha que se identifica com o “vale de lagrimas” já derramadas, mas que não serve para irrigar a seca do sertão. Depois rezam “Cordeiro de Deus que tirais o pecado do mundo, tende piedade dele” pedindo perdão pelo morto, por garantia, pois sabem que de sua vida e luta não há o porque pedir perdão.
Finalmente o caixão chega até a cova, sete palmos cavados na terra e na pedra, a base da picareta. Muitos olham para a cova e comentam sobre o esforço de quem cavou. O caixão é baixado na cova, com uma bandeira do CETA sobre ele, que o acompanhou em todo o trajeto. Fazem juras de que a luta, a vida de Léo não foi em vão. Depois cantam: “mataram mais um irmão ... mas ele ressucitará” em cada um de nós, disse um sertanejo, disposto a não arredar o pé da luta. A bandeira do CETA é retirada, pois o Movimento Estadual dos Trabalhadores Assentados e Acampados continua vivo. Os torrões e pedras são novamente jogados na cova, cobrindo o corpo no caixão.
No retorno a prosa flui. Perguntam se sou estrangeiro, pois sou o mais galego entre todos e respondo que não. Contam-me que um dos filhos do Léo perguntou: “Agora quem vai fazer reunião?” Outro disse: a vida é assim e o Senhor disse, “cresceu e multiplicai-vos”, só não entendi se falava das pessoas ou do CETA, talvez de ambos. E já é quase meio-dia do dia 8 de setembro de 2011. E escuto, de um senhor quase pele e osso: este sol resseca tudo, até gente.
E, colocando terra e pedras sobre o sofrimento, a vida e a luta continua, até que não haja mais grileiros de terra publica apoiados por políticos que criam leis para legitimar o avanço do capital. Mas, está é uma outra parte, desta mesma história.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

PJR: fé, luta e resistência

PJR: fé, luta e resistência
Julia Letícia Helmer Brum

A juventude camponesa, cansada da opressão, decide se organizar em prol do projeto popular para o Brasil, nos reunimos na Pastoral da Juventude Rural – PJR, para rezar a vida, as lutas, os sonhos em comum, desta juventude historicamente coibida, e nos constituímos em um serviço a serviço dos jovens e das jovens da roça, que pautam o campo como espaço de vida e resistência.
Essa organização surge simultaneamente, porém em movimentos independentes, em 1983, no Sul e no Nordeste brasileiro, e se unifica, como PJR nacional, no ano de 1988. Neste período era grande a emergência de movimentos sociais populares, que se articulavam em todo Brasil, movidos primeiramente pela necessidade da melhoria nas suas condições de vida, e impulsionados pela teologia da libertação, que representa a opção histórica da igreja – especialmente a igreja católica- pelos pobres. Nesse contexto a PJR se afirma como uma pastoral ecumênica, que se articula junto a Via Campesina Nacional. Uma organização de jovens militantes cristãos, que se assumem como discípulos missionários de Jesus de Nazaré, e se colocam a serviço, forjando uma sociedade justa e igualitária.
Com o decorrer do tempo, viemos reafirmando nossa identidade, como Pastoral, por sermos um serviço, com motivação no Evangelho, que nos convoca a nos colocar a serviço da vida, inspirados na fé, na esperança e na caridade, assumindo o projeto de Jesus; Da, por nos assumir como um espaço juvenil, com seu olhar, animação e protagonismo; Juventude, compreendendo-a como destinatária e ao mesmo tempo um sujeito coletivo organizado (categoria), que não vive apenas de sua religiosidade, mas faz opções; e Rural, assumido o campo como o meio específico, com sua cultura camponesa, que nos leva a uma opção pelos jovens camponeses empobrecidos e a um olhar roceiro nesta sociedade urbanizada.
Essa identidade é afirmada por elementos que se manifestam no nosso jeito de ser. Na nossa mística, camponesa, enraizada na mãe terra, cristã embasada e encarnada na vida do jovem camponês de Nazaré, e popular que emerge da memória subversiva da luta dos trabalhadores, na nossa luta, contra todas as formas de injustiça, na nossa forma de compreender o campo ou roça, como um lugar de vida digna, de convivência ou sintonia com a natureza, no estudo como necessidade de aprofundamento ou formação, a partir das demandas de teorização de nossa prática, e no companheirismo, por comermos do mesmo pão, fruto da natureza e do trabalho humano, e que exige uma relação de apoio e de cuidado com o outro, com a outra.
Estes elementos se concretizam em dois espaços, o eclesial onde, como povo de Deus, nos organizamos em comunidade, esse é nosso espaço de fé. E o social onde, como militantes-cristãos, atuamos a favor dos pobres, na luta da classe trabalhadora, este é nosso espaço de vida e atuação política. No engajamento nestes espaços, assumimos por nossa missão evangelizar e conscientizar a juventude camponesa, especialmente as jovens e os jovens empobrecidos, e formar militantes cristãos, discípulos missionários de Jesus Cristo, para contribuir na transformação da sociedade assumindo a construção do projeto popular e campo, articulado ao de sociedade, e lutar pela vida do planeta terra.
A juventude que se sente desamparada passa a cultivar o amor pela terra, e o carinho com os companheiros de caminhada, somos cativados pelo jeito simples da busca pelos sonhos, pelo jeito simples de entender nossas realidades especificas, e pelo aconchego da esperança, por acreditar que juntos podemos forjar uma nova sociedade. A partir daí, percebemos que não há o dia em que passamos a ser PJR, mas sim o dia em que nos achamos, em meio aos companheiros que conosco comungam da mesma espiritualidade encarnada e libertadora da juventude militante. (da mesma fé, dos mesmos sonhos, e da mesma luta).

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Da roça ao mestrado em agroecologia em Cuba

Poliane Oliveira Dutra

“Oportunidades surgem na vida da gente graças a muita luta do povo pobre organizado.” (Poliane)

 Todas as fases da vida são muito importantes desde que nascemos até quando, pela morte, passamos para a vida plena. Acredito que a juventude é a fase mais linda e mais forte da vida. Faço esta afirmação sabendo que corro o risco de estar cometendo um erro, mas insisto em fazer, porque estou vivenciando esta fase da minha vida. Sou uma jovem e acredito que nesta fase é quando sonhamos mais, buscamos mais, temos mais esperança e coragem, sentimos uma vontade imensa de mudar o mundo e sabemos que, se nos dão essa oportunidade, somos capazes de mudá-lo. É verdade o que dizia Che Guevara “O alicerce fundamental da nossa luta é a juventude.” Se queremos fazer revolução em qualquer parte do mundo é necessário envolver a juventude.
Mas diante de uma conjuntura tão complexa que vivemos e pelo fato do nosso país ser capitalista, com tanta desigualdade, tanta injustiça e tantos problemas sociais, a pergunta que surge é: como anda a juventude brasileira? Muitos jovens no nosso Brasil diariamente enfrentam com realidades tão duras, tão difíceis que as expectativas de uma vida melhor, os sonhos, nem conseguem fecundar, criar e recriar em suas mentes e em seus corações. Se tudo é tão difícil, o jovem pode se perder. Somos milhões. O que fazer? Qual o projeto que existe para a juventude? Atualmente encontramos milhares de jovens alienados pelos meios de comunicação, pelas músicas sem fundamento e cultura, milhares se destruindo nas drogas e na prostituição, a grande maioria não consegue estudar. Fazer uma faculdade é impossível para a maioria. As limitações da vida para a juventude são tantas que os jovens acabam perdendo o direito de sonhar e o fato da maioria dos jovens não estarem envolvidos em grupos sociais organizados e comprometidos com a mudança da sociedade, não contribuem com o potencial revolucionário que existe dentro de cada jovem para a mudança do nosso país. A grande maioria limita-se na vida a lutar pela sobrevivência, que é uma luta árdua e pesada, e outros resumem suas vidas a mesquinharias.
Faço essa introdução porque acredito na juventude como instrumento de mudança da sociedade. Sei que não é fácil ser jovem e mulher em uma sociedade tão individualista e com um sistema tão perverso como o capitalismo. Acredito que a juventude precisa ser valorizada, convocada para o mutirão de construção de uma sociedade diferente, o Brasil que queremos. Se hoje sou uma jovem que sonho e tenho perspectivas para o meu futuro é graças à organização e a luta dos movimentos sociais do campo nos quais me engajei e faço minha militância.
Outro dia tive a alegria de ler um texto, um testemunho da jovem Gisele Antunes, que era menina de rua e hoje faz medicina em Cuba. Fiquei muito comovida com sua história. Ao ler, senti força, alegria e esperança. É vital acreditar na vida. Que bom conhecer uma jovem que, ao encontrar uma oportunidade de crescer como cidadã, agarrou a chance e está lutando. Animada por Gisele, resolvi contar um pouco da minha história, na esperança de socializar um pouco das proezas que os movimentos sociais populares vêm conquistando. Ao contar, revelarei também meu reconhecimento e eterna gratidão a todos que me apoiam na luta. Quem sabe servirá de luz e esperança para outras pessoas, outros jovens.
Durante toda minha vida vivi no campo. Sou uma jovem de 26 anos da região Noroeste do estado do Espírito Santo. Vivo no município de Barra de São Francisco, em uma comunidade que se chama Valão Fundo, um lugarzinho muito gostoso, aconchegante de se viver que tem como principal cultura e renda para as famílias o café conilon. Aqui aprendi o que é viver em comunidade. Tenho uma ligação muito forte com a mãe terra, com o campo, com a agricultura, com as pessoas do campo. Sou de família pobre. Os meus pais eram camponeses, viviam somente da renda que a terra gerava. Aos oito anos de idade, perdi minha mãe Genilda Dalva de Oliveira Dutra por problemas de coração. Meu pai Ilson Ricardo Dutra, cansado com a lida na terra, desistiu de ser camponês e foi para a cidade de Vitória, capital do Espírito Santo. Foi ser ajudante de pedreiro, trabalhar na construção civil. Minhas duas irmãs e eu não fomos com nosso pai, pois seria muito difícil cuidar de três filhas na cidade grande. Ficamos na roça, cada uma morando com um tio, irmãos da minha mãe. Fui criada por meu tio Gênis Oliveira Sobrinho, carinhosamente chamado de Tizil, irmão da minha mãe e pela minha tia Maria da Penha Miranda de Oliveira, sua esposa, que são meus padrinhos, pessoas que admiro e amo muito, a eles sou eternamente grata pelo carinho, cuidado e contribuição na minha formação. Esse momento da minha vida foi muito difícil. Perdi minha mãe, meu pai e fui criada separada das minhas irmãs. Desde então coloquei como propósito na minha vida que o estudo seria um farol da minha vida.
Quando fui fazer a 6ª série do Ensino Fundamental a minha vida mudou completamente. Conheci a Escola Família Agrícola – EFA -, que trabalha com a Pedagogia da Alternância. O estudante fica uma semana na escola e uma semana na comunidade, trabalhando a teoria/Práxis, onde desenvolve a Educação do Campo. As EFAs são escolas que foram feitas com uma pedagogia própria e apropriada para os jovens do campo; mostram que é possível trabalhar uma educação libertadora e emancipadora do ser humano. Por este projeto me apaixonei e pela primeira vez na minha vida comecei a ver luzes, esperanças. Identifiquei-me com a escola, com a proposta pedagógica. Aprendi a valorizar a cultura camponesa e a fortalecer a minha identidade de jovem da roça. Reconheci que jovem da roça também tem valor. Sou camponesa com orgulho. Não tenho vergonha de capinar, plantar, colher, viver da terra.
Dentro da sua proposta pedagógica, as Escolas Famílias Agrícolas têm como objetivo a formação integral do sujeito e despertar no estudante a importância de ser um sujeito protagonista do seu meio, da sua comunidade, pois todo estudo é voltado para a realidade do estudante, onde acreditamos na primasia da vida sobre a sala de aula. A vida ensina muito mais do que a sala de aula. Por isso fazemos um estudo contextualizado na realidade do povo camponês. Não aprendemos a ter uma visão romântica do campo. As EFAs, que já são cerca de 150 no Brasil, despertam nos jovens o senso crítico e a capacidade de análise e a convicção de que é preciso se organizar e lutar por um campo com melhores condições de vida.
Ao discutir os nossos problemas da roça, comecei a entender porque nosso povo do campo sofre tanto, a entender porque existia o meeiro, porque é tão caro para os camponeses produzirem e difícil encontrar mercado para os seus produtos, a falta de investimento na pequena agricultura, a camponesa. Pela primeira vez na vida ouvi falar e conheci os movimentos sociais do campo. Foi por causa da proposta pedagógica da Escola Família Agrícola que dentro da escola fui me destacando como liderança, fui me envolvendo. Com o passar do tempo foi despertando em mim, de maneira forte e muito segura, que eu queria ser monitora de Escola Família Agrícola, quer dizer, ser educadora da Pedagogia da Alternância em alguma Escola Família Agrícola.
Estudei nesta escola que fica situada em Barra de São Francisco, ES, até a 8ª série, pois nesta escola não tem Ensino Médio. Para eu conseguir continuar no projeto da Pedagogia da Alternância, teria que ir estudar em uma EFA de Ensino médio em outro município, pois na época não tinha no meu município. Foi uma grande frustração na minha vida, pois não consegui; era muito longe. Fui para a escola convencional do meu município, popularmente conhecida como estadual, senti na pele a diferença dos estudos. Mas serviu para reforçar em mim que eu não deveria desistir dos estudos e do que eu sonhava. Mas continuei militando na EFA. Fui eleita para fazer parte do conselho da Associação dos agricultores da escola. Tornei-me a primeira ex-estudante a fazer parte de uma associação dos agricultores das EFAs, em nível de estado. Por isso sempre estive presente na vida da escola, participando de reuniões, encontros, assembleias etc. Comecei a fazer parte da Pastoral da Juventude Rural – PJR -, que também trabalha com os jovens da roça, onde fortaleci ainda mais a minha identidade camponesa.
A PJR é uma pastoral que reivindica melhoria de vida para a juventude rural, com o intuito de fazer do campo um lugar com condições dignas de vida, que tem um caráter libertador e atua junto aos movimentos sociais do campo. Na PJR eu continuo militando. Comecei a participar das CEBs – Comunidades Eclesiais de Base -, que é a parte da igreja com a qual me identifico muito, porque trabalha com a Teologia da Libertação. E até hoje bebo da espiritualidade libertadora que a CEBs proporciona, onde me fortaleço a cada dia.
Em 2003 terminei o Ensino Médio na rede pública estadual. E tinha o sonho de poder fazer uma faculdade, mas sabia que seria muito difícil. Dinheiro não tinha para pagar e tinha consciência do estudo fraco que tive no Ensino Médio e seria muito difícil passar em uma universidade pública. Mesmo assim tentei vestibular em duas federais. Não tinha mais dinheiro para pagar inscrição em outras universidades e, como milhares de jovens pobres do Brasil, chorei muito, porque não consegui passar. Uma certeza repetia no meu coração: quero continuar estudando. Continuei militando e trabalhando.
Em 2004 aconteceram duas coisas muito importantes para mim: comecei a lecionar em uma EFA e iniciei um curso universitário. Primeiro, fui convidada para fazer o curso de Graduação em Licenciatura Plena em Ciências Agrárias na Universidade Federal da Paraíba – UFPB. Quem me convidou foi a RACEFFAES – Regional das Associações dos Centros Familiares de Formação por Alternância do Espírito Santo -, que coordena politicamente e pedagogicamente 19 EFAs no norte do Espírito Santo. Ao ouvir a proposta, fiquei muito feliz, pois estava perto de realizar um dos meus maiores sonhos. Curso esse em convênio com a UFPB/PRONERA e Via Campesina2 dentro do método da Pedagogia da Alternância. Cada etapa do curso era de dois ou três meses, tínhamos o “tempo Universidade” e o “tempo comunidade”. Foi uma felicidade sem tamanho. Aceitei a proposta e fui estudar na Paraíba, na turma da Via Campesina, representando a RACEFFAES. Foi uma experiência incrível. Nossa turma era formada por jovens camponeses de 17 estados do Brasil. Que riqueza cultural! Aprendi muito, além do estudo científico adquirido, cresci muito como pessoa, como militante e politicamente, aprendi muito com os movimentos sociais. Sofremos muito preconceito na Universidade, a ponto de alguns professores, que se diziam ser tão estudados, se negarem a dar aula para nós, porque éramos Sem Terra. Conquistar infra-estrutura, alimentação, livros, transporte só com muita luta. Algo tremendamente relevante foi estudar no Nordeste e conviver com o povo nordestino. Quanta sabedoria! Minha turma foi a primeira turma de Ciências Agrárias da Via Campesina, uma grande conquista. Além da minha turma, há várias outras turmas de outros cursos, que já terminaram e outros que ainda estão estudando. São cursos de História, Pedagogia, Veterinária, Agronomia, Economia, Direito, Comunicação, Agroecologia etc. Tudo conquistado graças a muita luta da classe trabalhadora, dos movimentos sociais do campo.
Segundo, em 2004, conquistamos uma EFA de Ensino Médio Profissionalizante em Barra de São Francisco e tive a oportunidade de realizar outro grande sonho: o de me tornar monitora de Escola Família Agrícola. Comecei a trabalhar na escola onde estudei. Já podia lecionar, pois estava cursando uma licenciatura. Foi uma grande realização, enquanto pessoa e profissionalmente. Poder trabalhar em um projeto que acredito me faz feliz.
Em 2008 concluí a faculdade de Ciências Agrárias. Com muita dificuldade fizemos uma linda festa. Lembro que ninguém da minha família participou, porque não tinha condições financeiras para poder viajar e participar. No ano de 2008 tive a oportunidade de trabalhar na secretaria da Via Campesina, em Brasília, a convite do MST3 acompanhando a luta contra os transgênicos e as transnacionais. Quanto aprendizado! Ampliei meu leque de conhecimento e contribui com a classe trabalhadora. Foi também um momento de muita angústia na minha vida, pois presenciei de perto o descaso de deputados, senadores, das autoridades com o nosso povo brasileiro. Eu participava de Audiências Públicas e saía indignada com o que ouvia dos pretensos representantes do povo brasileiro, mas serviu para fortalecer em mim que a mudança que queremos para o Brasil infelizmente não vai acontecer via processo eleitoral. É preciso o povo se organizar e fazer a revolução.
Em 2009 voltei a lecionar na EFA de Ensino Médio de Barra de São Francisco, já licenciada e com mais condições de contribuir com as EFAs. Oportunidades surgem na vida da gente graças à luta do povo pobre organizado.
Desde que comecei a minha militância, toda vez que ouvia falar de Cuba sentia uma forte vontade de conhecer a pequena ilha socialista que serve de exemplo para todos que sofrem as agruras do capitalismo. E eis que, através dos movimentos sociais do campo, pintou a oportunidade de eu estudar em Cuba. Eu e outros oito jovens da Via Campesina estamos fazendo mestrado em Agroecologia na Universidade Agrária de La Havana, em Cuba. Estudar no meio do povo cubano, representando a Via Campesina, é no mínimo um processo de humanização na vida da gente e a confirmação da certeza que a luta dos movimentos sociais é justa, legítima e necessária.
Estudei em Cuba sete meses, em 2010. Vi e vivenciei verdadeiras proezas, verdadeiros milagres. Dizer que Cuba não tem problema é mentira, mas também dizer que o socialismo não funciona é outra mentira. É impossível não admirar e não respeitar a história de luta por libertação de Cuba e do povo cubano. Fidel Castro não é ditador, pelo contrário, é admirado, respeitado e amado pelo seu povo e tanta gente digna pelo mundo afora. Dia 3 de setembro de 2010, participei de um Ato Público em La Havana, onde Fidel discursou. A multidão foi para as ruas somente para ouvir ele falar. Diferente do que a Mídia passa, em Cuba não existe ditadura; há, sim, um poder popular. O povo tem representantes escolhidos por eles através dos conselhos populares. E cada representante popular que trabalha no governo não recebe por isso. Recebe seu salário de outro trabalho que exerce na sociedade, como, por exemplo, professores, cozinheira, secretária etc. Trabalham no governo e no trabalho formal para poderem receber seus salários como qualquer outro trabalhador cubano. Em Cuba, há 500 deputados eleitos que não recebem salário por ser deputado.
Outro ponto muito importante que a mídia ignora é o bloqueio econômico imposto sobre Cuba pelos Estados Unidos, que é muito injusto e dificulta a vida de todos por lá. Cuba não é um país rico em recursos naturais e depende de muitos produtos externos e compra tudo mais caro, devido ao bloqueio. Por isso o povo vive com condições limitadas.
O governo faz verdadeiro milagre. Mesmo com tanta limitação, o povo tem acesso a Educação de qualidade. Já imaginou, nenhum cubano é analfabeto! Isso é único. Mais de 35% da população cursa ensino superior.
O sistema de saúde funciona. Tantos médicos, enfermeiras. Tenho 26 anos e aqui no Brasil nunca vi um médico negro, nunca consultei com um. Em Cuba vi vários e consultei com vários. Em Cuba, medicina não é profissão de branco rico, é profissão de quem tem dom para exercê-la. Na pequena ilha não existe racismo, as pessoas são livres. Tem investimento e incentivo para o esporte, para a cultura, o povo tem acesso ao cinema, teatro, dança etc, por um preço acessível, não se vê violência. Os cubanos são muito felizes, adoram conversar, dançar, são divertidos.
Na agricultura estão mostrando na raça que é possível produzir de forma agroecológica de maneira livre sem alimentar o monopólio das transnacionais no uso de agrotóxicos e adubos sintéticos. Cuba está em uma luta para garantir a produção de alimentos e importar o mínimo possível. O Governo fornece subsídios, assistência técnica, implementos agrícolas para incentivar a agricultura na produção de alimentos; compra 80% da produção dos camponeses por um preço justo e repassa esses produtos para o povo por um preço muito mais baixo. Vi e vivenciei momentos com um povo culto, alegre, que são alimentados com a mística do cuidado, do não consumismo, do não desperdício, consciente do sistema no qual vivem e por isso não querem outro, porque sabem que com o sistema capitalista os pobres não têm vez e nem voz. Pude sentir a solidariedade, acolhida, o internacionalismo que Cuba tanto defende, prova disso que somos nove jovens pobres da Via Campesina estudando em Cuba em convênio com o Governo Cubano e assim, como nós, mais de 15 mil jovens do mundo todo. Em Cuba, pela Via Campesina temos companheiros estudando medicina, veterinária, agroecologia, História da Arte e outros cursos. Cursos esses que são conquistas da organização e da luta do nosso povo pobre, da classe trabalhadora que nesta instância, representados pela Via Campesina, pelos movimentos sociais do campo.
No mestrado discutimos e aprendemos muito sobre a Agroecologia, que é uma nova ciência, um novo paradigma que está colocado para nós que precisamos estudar, entender e colocá-la em prática. A Agroecologia vai muito além de simplesmente substituir na agricultura insumos sintéticos por insumos orgânicos. Agroecologia é uma postura de vida, junto com ela vem uma mudança da estrutura da sociedade, do sistema, porque defende a vida e o Planeta. Defende a produção limpa de alimentos saudáveis, não simplifica os agro-ecosistemas, respeita a complexidade da natureza. E vai contra esse modelo de exploração, de consumismo e destruidor da vida. Sem Agroecologia não é possível uma sociedade diferente.
Sou uma jovem pobre que tive oportunidade de estudar e passo-a-passo estou realizando meus sonhos. Tenho certeza que se não fosse meu envolvimento, minha militância nos Movimentos Sociais Populares, jamais teria conseguido chegar até aqui e sei que é somente uma fase, uma parte do caminho a ser caminhado. Conquistaremos muito mais! Acredito na juventude e no potencial dos jovens, sei que, se estão no lugar certo e com as pessoas certas, fazem a diferença que querem ver no mundo. E sei que a Via Campesina tem um projeto para a juventude camponesa e é um espaço fértil para a juventude fazer militância. Como dizem é o meio social que forma o ser e a minha formação é no campo, para o campo e as pessoas do campo. Sei da importância da militância nos movimentos sociais e quero continuar firme na luta colocando meu conhecimento a serviço da classe trabalhadora, como diz a estrofe do hino “deixa-me ser jovem não me impeça de lutar, pois a vida me convida a uma missão realizar”. E eu sei da minha missão e do lado de que eu quero ficar. E você, jovem? Vem militar também, entra na roda com a gente. . . Vem!
Barra de São Francisco, ES, 18 de fevereiro de 2011
  

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Juventude como Construção Social

 Texto de Paulo Mansan, PJR do Espirito Santo, retirado de sua qualificação 
do mestrado sobre juventude camponesa
                Essa discussão dos Movimentos sociais juntamente com a academia vem quebrando um pouco da invisibilidade da juventude. Apesar disso, o tema da juventude sempre esteve presente nas ciências sociais. Algumas vezes se trabalhou com uma idéia genérica de juventude, em outros momentos se enfatizou as especificidades no interior desta. Os jovens foram vistos de diferentes modos e por diferentes métodos. Os estudos sobre a juventude indicam que devemos percebê-la como uma construção social, cultural e histórica dinâmica, intimamente ligada às transformações contemporâneas. É importante para este estudo, sob nosso ponto de vista, a perspectiva construída por Abramo (1997), que em sua revisão bibliográfica afirma que a categoria Juventude situa-se num contexto histórico.  (...) a noção de juventude é socialmente variável. A definição do tempo de duração, dos conteúdos e significados sociais desses processos modificam-se de sociedade para sociedade e, na mesma sociedade, ao longo do tempo e através das suas divisões internas. (ABRAMO, 1997)   Ao revisarmos a construção teórica de Abramo, entendemos que para a autora a juventude é uma categoria em movimento e em constante construção, ou seja, é uma categoria sem atributos pré-definidos, essencializados. Ela também afirma que para a academia, a juventude aparece, ou seja, sai da invisibilidade só na passagem do século XIX para o século XX. Porém, aparece como um problema.  A visibilidade da juventude e sua tematização como problema constróem-se, nesse período, através do surgimento de um comportamento ‘anormal’ por parte de grupos de delinqüentes, ou excêntricos, ou contestadores, implicando todos, embora de formas diferentes, em um contraste com os padrões vigentes (Abramo, 1997).   Logo nessa época a juventude aparece claramente em cena, quando causa problema, ou quando foge da normalidade. Seguindo esta mesma linha de compreensão, Groppo é outro autor que partilha da perspectiva da juventude como uma construção histórica, em que o jovem não pode ser definido simplesmente pela faixa etária. Segundo ele, tem que ser entendido a partir das realidades sociais e culturais, em que os sujeitos jovens estão envolvidos:  (...) ao ser definida como categoria social a juventude torna-se, ao mesmo tempo, uma representação sociocultural e uma situação social. Ou seja,a Juventude é uma concepção, uma representação social ou criação simbólica,  fabricada pelos grupos sociais ou pelos próprios indivíduos tidos como jovens. (Groppo, 2000, p.7).
 Os próprios autores clássicos da sociologia, como Mannheim, explicaram que é “preciso pensar juventude e sociedade em termos de reciprocidade total”(Mannheim, 1968), ou seja, o termo “juventude” designa um conjunto de relações sociais vividas pelos elementos considerados jovens de uma determinada sociedade, pois “(...) depende em grande parte das influências orientadoras e diretoras vindas de fora saber se essa potencialidade será suprimida ou se será mobilizada e integrada num movimento”.  Ou seja, segundo este autor, na formação da juventude, em grande parte, participam as construções sociais históricas por ela vivida (Mannheim, 1968).
Na revisão bibliográfica de Castro (2005), ela menciona Foracchi (1972), que diz que duas gerações convivem em dado contexto histórico, “juventude” caracterizada como um momento do ciclo-de-vida de todo indivíduo, em oposição à condição “adulta”. Para Foracchi (1972), esta abordagem contribui para se problematizar a definição físico/biológica na medida em que,
[...] não sendo passível de delimitação etária, a juventude representa, histórica e socialmente, uma categoria social gerada pelas tensões inerentes à crise do sistema. Sociologicamente ela representa um modo de realização da pessoa, um projeto de criação institucional, uma alternativa nova da existência social. (Foracchi (1972) in Castro, 2005:160).
Já Bourdieu argumenta que a vivência geracional é construída a partir de “aspirações sucessivas de pais e filhos, constituídas em relação a estados diferentes da estrutura da distribuição de bens” (1983:118). No mesmo sentido, estaria associada a diferenças do acesso à formação. Ou seja, as relações geracionais sofreriam influência das mudanças no sistema de ensino que ampliaram o acesso à formação, ao mesmo tempo em que desvalorizaram os títulos que representam cada ciclo de formação. Assim, a noção de geração seria construída relacionadamente, por oposição, mais que por aproximação.
Como se percebe acima, não trabalhamos simplesmente com o corte etário de 15-24 anos, definido por organismos internacionais como OMS e UNESCO, ou outro corte etário qualquer, como os governamentais, de 14-29 anos, que procuram homogeneizar o conceito de “juventude” a partir de limites mínimos de entrada no mundo do trabalho reconhecidos internacionalmente e através dos limites máximos de término da escolarização formal básica (básico e médio).  Pretendemos trabalhar com autores que abordam que a idade como categoria classificadora é transitória e só pode ser analisada em uma perspectiva histórica de longa duração. Um outro caminho seria analisar os ritos de passagem que indicam a “entrada” e a “saída” da condição “jovem” e suas construções simbólicas. Como por exemplo, Bourdieu, em “A Juventude é apenas uma palavra” (1983), em que este autor relaciona idade biológica e idade social, afirmando que são indissociáveis.
Nas palavras de Bourdiear,
(...)idade é um dado biológico socialmente manipulado e manipulável; e que o fato de falar dos jovens como se fossem uma unidade social, um grupo constituído, dotado de interesses comuns, e relacionar estes interesses a uma idade definida biologicamente já constitui uma manipulação evidente. Seria preciso analisar as diferenças entre as juventudes (...) (1980) 
Para o autor, a idade é socialmente construída e varia em cada sociedade nos diferentes momentos históricos e a partir de distinções de idade, gênero e classe. Concordamos com essa definição, e no nosso caso, estamos preocupados com a construção da juventude enquanto um ator político em construção nos movimentos sociais da Via Campesina. 

 FORACCHI, M. M. A Juventude na Sociedade Moderna. São Paulo: EDUSP, 1972.

JUVENTUDE DO CAMPO e o CAPITALISMO.

 Texto de Paulo Mansan, PJR do Espirito Santo, retirado de sua qualificação 
do mestrado sobre juventude camponesa

Na análise da Via Campesina, 
" nos últimos anos está aumentando o número de sem terra no campo.
 Ocorreram processos de reformas agrárias em vários países do mundo, 
apesar de cada país viver momentos históricos diferentes e haver diferentes 
graus de organização dos camponeses. O que gera algo comum é o fato de que 
em todas elas, houve um processo de democratização da terra,
 e de diminuição da pobreza e das desigualdades sociais nos 
meio rural.” ( VIA CAMPESINA, 2004,  p. 10).

           Porém, nos países em desenvolvimento não podemos dizer que houve grandes processos de reforma agrária, ainda quando nestes países vive a maior parte dos camponeses do mundo. Isso ocorreu por dois fatores: a existência de um modelo capitalista dependente, colonial, que articulou a grande propriedade com a exportação de produtos primários como grãos, carne e matérias-primas necessárias à indústria;  o poder político nas mãos dos grandes proprietários - oligarquias rurais - articulados com as burguesias nacionais e estrangeiras. Nestes países de terceiro mundo que não fizeram a reforma agrária persistem os mais variados problemas sociais como a pobreza e a miséria, a concentração de terra, riqueza e renda tanto no campo quanto na cidade.  Mazelas estas agravadas nos últimos anos devido a opção dos governos pelas políticas econômicas neoliberais: 
   “ essas políticas subordinaram as economias agrícolas locais aos interesses do grande capital internacional, abriram os mercados às empresas multinacionais, elevaram as taxas de juros, desmantelaram o setor público agrícola que é fundamental para o meio rural, como a pesquisa agropecuária, assistência técnica, e as políticas de preços, de crédito e de seguro. Isso provocou um aumento de camponeses sem-terra e um desespero dos pequenos e médios proprietários, que já não encontram mais na agricultura uma alternativa econômica viável para o progresso econômico e social de suas famílias e de suas comunidades.” ( VIA CAMPESINA, 2004, p. 11). 
          Aliado a este fator neoliberal está o processo de aceleração da destruição da pequena propriedade provocando um aumento do êxodo rural, especialmente da Juventude. O jovem que antes tinha a segurança de permanecer na pequena propriedade dos pais, trabalhar na sua própria terra com o sentido da produção familiar e da pertença ao território e à comunidade, agora está subordinado a um processo de expulsão do campo, de sua terra, suas raízes.O capitalismo ainda trabalha com um mecanismo cultural, constrói que o campo é atrasado e retrógrado, e junto com isso soma uma infinidade “de faltas” que existe no campo.  No I seminário da Juventude  da Via Campesina Brasil,  em São Paulo Escola Nacional Florestan Fernandes, novembro de 2006, 60 jovens dirigentes de 22 estados Brasileiros tiraram bandeiras centrais para a permanência, fixação e reprodução do jovem camponês. O objetivo do seminário era: ”O presente Seminário surge da percepção da Via Campesina diante da desarticulação da juventude camponesa. Inicialmente, a Igreja e os Partidos Políticos se apropriaram das demandas da juventude. Em seguida, o mercado e a direita também passaram a disputar esse segmento da sociedade. Dentre as questões que permeiam a temática da juventude organizada se encontram: educação, trabalho e renda, ausência de políticas públicas, arte, cultura e violência. Desse modo, a perspectiva deste Seminário é discutir métodos de aglutinação da juventude camponesa e urbana. E os temas que as unificam. (ENFF, São Paulo, 2006, p.01)  
   As oito principais bandeiras  que saíram do encontro com a perspectiva de unificar as necessidades da Juventude das organizações camponesas, foram:
1- Reforma Agrária, a necessidade de o país pensar uma política de terras para a juventude camponesa;
2 - Educação do Campo, na área da alfabetização de acordo com dados do próprio governo, existem hoje 3 milhões de jovens analfabetos no país, destes a maioria é do interior da região nordeste. É fundamental apontar perspectivas para a inserção da juventude no Ensino Básico e Superior;
 3 - Trabalho como geração de renda. Crédito, assistência técnica, cooperativas de crédito, agroindústrias, capacitação técnica para os jovens camponeses;
 4 - Organização coletiva da produção, como forma de esperança e crença no campo; produzindo de forma agroecológica. O princípio é o do cuidado com o movimento, com a terra e com a vida;
5 - Cultura, faz-se necessário multiplicar o acesso e a produção de bens culturais: cinema da terra, teatro, tele centros do campo;
 6 - Esporte e lazer para o jovem não ter que procurar fora ;
 7 – Formação política, humana e técnica para os jovens camponeses, além de garantir infra-estrutura do campo: estradas, luz, comunicação, acesso a informação, transporte, água, saneamento para fazer do campo um lugar bom de viver.Assim, percebemos que pelas necessidades que os Jovens camponeses têm de ter uma vida no campo, compatível com o principio de dignidade e pertença,  falta quase tudo. A relação juventude camponesa e capitalismo é repleta de contradições, não diferente das vividas pelos jovens urbanos, apesar dos jovens do campo terem particularidades acentuadas no sentido de pertença, de comunidade e de integração com a terra como parte integrante e constitutiva de seu ser. As contradições se dão no bojo do próprio sistema metabólico do capital que, ao avançar, intenta destruir tudo o que é próprio, particular, específico e originário.
Para isto 
 capital utiliza formas objetivas e subjetivas de se impor como modelo único e imperante frente a qualquer outro modo e critério de ver e viver a vida. É em meio ao que se tem, emanado pelo capital, e o que se deseja ser emanado da cultura camponesa, que este jovem se faz com dúvidas e temores que só podem ser, pouco a pouco, superados a partir de uma militância política engajada que o revele o mundo e as possibilidades de superação. Por mais desproporcional que seja a correlação de forças entre a juventude camponesa e o sistema do capital, é necessário notar que a juventude do campo é uma categoria que sempre se recria junto com o campesinato, sendo por vezes o elemento mais dinâmico da família camponesa e das comunidades. Em muitas comunidades e assentamento onde a Via campesina tem grande parte de seus moradores como seus militantes é a juventude camponesa quem dá a esperança de dias melhores, seja pela sua alegria, pela sua organização em grupos, ou seja pela disposição nos trabalhos da família  e da comunidade, enfim é a esperança da reprodução do ser camponês.


Relatório do I seminário nacional da Juventude da Via Campesina, com a participação de todas as organizações da Via campesina. Novembro de 2006, Escola Nacional Florestan Fernandes, Guararema- São Paulo. Participação de 60 dirigentes camponeses e 15 urbanos.